• O século XIX consolidou a figura romântica do viajante, aquele indivíduo que viajava porque era preciso. Não importando de que natureza fosse essa necessidade, ele parecia se preocupar mais com o percurso do que com o destino final. O viajante jamais se conformaria com a mirada do turista, de puro deleite da paisagem, pois ele está fortemente comprometido com o reconhecimento da cultura do anfitrião e dedica sua vida a isso. Depois de certo tempo – principal instrumento de navegação e viagem –, ele podia atingir tal integração à paisagem que não mais a enxergaria; estaria totalmente nela diluído.

    O turista, por sua vez, é aquele indivíduo que viaja por prazer, movido principalmente pela curiosidade de conhecer outras paisagens – lugares, indivíduos, culturas. No século XX aprendemos com ele a ver a paisagem através da câmera fotográfica, para apreciá-la depois, em casa. O turista, então, coleciona imagens dos lugares que visitou; elas são a prova tanto de seu deslocamento pelo mundo quanto da consciência de que ele pertence a uma determinada paisagem, lugar e cultura. Na maioria das vezes, ele não se interessa em compreender a cultura do outro, mas quando retorna, reconhece e reafirma a sua própria, por contraste.

    Entre tantas definições possíveis, o início do século XXI é marcado pela velocidade, pela obsolescência tecnológica, pelas relações fugazes, pela horizontalidade da trama do conhecimento. Quando viajamos, o tempo que dedicamos à fruição da paisagem é demasiado curto e deve ser otimizado, principalmente por nós que pretendemos uma real integração à paisagem. Com treino é possível aguçar o olhar para enxergar através da paisagem local, ultrapassando barreiras naturais, cruzando fronteiras, usufruindo a trama da rede de informação que recobre o mundo físico, transformando-se em um turista transcendental.

    O turista transcendental é, então, aquele que, ao viajar para um lugar, traz junto consigo a memória de outro lugar. No plano teórico, se sua mirada é prospectiva, funciona como se, ao contemplar o mar, se preocupasse mais em demonstrar que aquela imensidão azul é a mesma que toca todos os demais continentes. De maneira oposta e retrospectiva, seria como olhar para um seixo rolado tentando mapear todas as pedras espalhadas pelo mundo que foram nascidas da mesma rocha. Na prática, ao documentar uma paisagem exótica, ele agrega, de forma alegórica, dados pertinentes a outros povos e lugares, como se construísse entre eles pontes delicadas, multidirecionais, permitindo-se novas travessias e amalgamando tudo isso à sua própria noção de paisagem. O foco de sua câmera de vídeo é ao mesmo tempo preciso e difuso e convida todos a imaginar experiências muito além do mundo material.
  • Bouk [ring/loop]

    2006–2009

    Viajar para Reunião – ilha vulcânica emersa no meio do oceano Índico – é como ir à França, mas nem tanto, ou muito além dela. Documentei em vídeo a paisagem que vi pela janela do carro, durante um passeio pela estrada que faz a volta completa na ilha. Três anos mais tarde, quando finalmente voltei a ver essas imagens, fui tomada pelo desejo de uma “volta àquela volta” em torno da ilha, ao revés – uma alegoria da reversão do tempo e sua contenção. Tudo isso por meio do som e da imagem de trás para a frente, em um loop sem fim. Retorno fugidio e impossível.

    As sequências de imagem foram estendidas ou ralentadas em um tempo três vezes mais longo e posteriormente decupadas e sobrepostas em três camadas, para conservar o tempo exato de gravação. Nesse ponto aconteceu algo que considero mágico. A sobreposição das camadas de imagem – cada uma tonalizada com as cores básicas da tricromia de impressão (ciã, magenta e amarelo)"– gerou uma imagem em movimento com uma improvável combinação de cinzas e brancos, imprecisos e fugazes. No vídeo, a persistência do frágil preto e branco parece sempre ameaçada quando uma das camadas desaparece, antes da introdução de uma nova camada (a terceira) que restaura a falta da cor, num processo cromático que parece desa!ar as leis da imagem técnica.

    O som quase mântrico obtido pela reversão das músicas de Daniel Waro, cantadas em língua crioula da ilha da Reunião, parece um lamento indecifrável que acompanha as imagens que resistem ao desaparecimento em preto e branco"– da mesma maneira que a língua crioula, em sua esperteza, sempre desafiou e resistiu à supremacia da língua do conquistador. É nas ilhas (onde se suporia a aniquilação da língua do oprimido) que o “fenômeno crioulo” se manifesta e resiste, por meio da clonagem de fonemas e estruturas verbais, porém mantendo sua matriz original, como uma maravilhosa mistura entre brancos e pretos.

  • Anuloma-viloma azteca

    2010– 2011

    Quem está familiarizado com as técnicas e a força energética dos pranayamas sabe que o princípio da alternância da respiração pelas narinas esquerda e direita se presta a equilibrar os nossos lados esquerdo/lunar e direito/solar. O Anuloma-viloma azteca foi, portanto, criado com o intuito de harmonizar as imagens de vídeo captadas nas pirâmides da Lua e do Sol, em Teotihuacán"– zona arqueológica localizada perto da Cidade do México cujo nome, na língua náuatle, significa o “lugar daqueles que seguem a estrada dos deuses”.

     

    A edição apresenta duas ações impossíveis de serem executadas no plano físico. Na primeira parte do vídeo, intitulada chandra"– lua, em sânscrito"–, a câmera grava a ação de subir os degraus da pirâmide da Lua para, em seguida, descer as escadarias da pirâmide do Sol, ambas localizadas na avenida dos Mortos de Teotihuacán. O ciclo desse pranayama visual é completado pela segunda parte do vídeo, intitulada surya"– sol, em sânscrito"–, ou seja: a subida da escadaria da pirâmide do Sol, até o topo, seguida da descida pelos degraus da pirâmide da Lua, até o chão. Ao subir e descer as pirâmides, ouve-se o som emitido quando se pratica a respiração conhecida como ujjayi, sincopado e ruidoso, que auxilia tanto na resistência física, durante a ação longa e cansativa, quanto na concentração, propiciando a meditação em movimento.

  • Kundalini freedom

    2009–2011

    Kundalini deriva de uma palavra em sânscrito que significa “serpente espiralada” e define a energia cósmica que, se despertada, pode transitar entre os diferentes chacras do nosso corpo físico, partindo do primeiro, onde mora, situado próximo à base da coluna e dos órgãos genitais. Se atingir o sétimo chacra, localizado no topo da cabeça, produz em nós uma profunda experiência mística, levando-nos à paz interior e à realização divina.

    O interior da Estátua da Liberdade, em Nova York, esteve fechado ao público por muito tempo desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas do World Trade Center foram destruídas. O acesso à cabeça da estátua voltou a ser autorizado, de forma controlada, limitado a poucas pessoas por dia e mediante reserva, oito anos depois. A subida até o topo se dá por uma escada em aço inox reluzente, em formato helicoidal, idêntica à representação gráfica da energia Kundalini.

    O percurso de 335 degraus, por dentro da Estátua da Liberdade, de sua base até a coroa, foi gravado com uma pequena câmera de vídeo na mão. Em Kundalini freedom, a imagem do vídeo foi editada e colorizada conforme as cores atribuídas aos chacras, do primeiro ao sétimo, na seguinte ordem: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, violeta e rosa. Quando atingimos o topo da cabeça da estátua, a paisagem vista através das janelas, localizadas na coroa, não havia foco. Perdeu toda e qualquer importância, como o indivíduo se liberta do mundo exterior no momento da realização espiritual. A imagem se desfaz, do rosa ao mais puro branco.

  • Yanğyin Bosphoros

    2011– 2012

    A distância entre a Europa e a Ásia pode ser de apenas setecentos metros no ponto mais estreito do estreito mais estreito do mundo. O Bósforo faz de Istambul"– conhecida como a “porta da felicidade”"– a única cidade, no mundo, com os pés em dois continentes e seus 31 quilômetros de extensão entre o mar de Mármara e o Negro são intensamente navegados por mais de 13 milhões de habitantes. O trânsito, a troca, a união e a dualidade parecem ter sido, desde tempos imemoriais, a marca de Istambul, como se percebe na música, na dança, na língua, no comércio, na vida profana e, por último, mas não por menos, na religião. Da mesma maneira que yang e yin não são forças ou dualidades opostas, os dois lados do Bósforo"– de desenho tão sinuoso quanto o interior do diagrama taijitu"– são margens complementares, que interagem em um todo, maior. Porém, não está em questão, aqui, definir qual lado do Bósforo corresponderia melhor aos aspectos “escuro, lunar, passivo, frio, retraído, fraco” e, de maneira oposta, “iluminado, solar, ativo, quente, expansivo, forte”. Assim como as coisas se expandem e se contraem, a temperatura oscila entre o quente e o frio, o movimento das águas e das duas margens sobrepostas dá a sensação do movimento contínuo yinyang-yangyin, ao som da música otomana que alterna acordes ocidentais e orientais. A felicidade continua sempre do outro lado da porta.

  • Uyuni sutra

    2008–2011

    Sutra, em sânscrito, significa, literalmente, “uma linha que mantém coisas unidas”; entretanto, também se refere a um aforismo formado por uma sucessão de conceitos específicos, os quais, se unidos numa sequência linear específica, geram um saber filosófico ou moral.

    Durante os 22 minutos que levei, de carro, da margem do Salar do Uyuni até a ilha Incahuasi, tentei manter a linha do horizonte que separa o sal do céu em posição horizontal e central, na tela de LCD da câmera, enquanto gravava a sua imagem em vídeo. Exercício muito difícil, que demanda concentração e firmeza de propósito. Percebi que, para manter minhas mãos firmes e a imagem perfeita, eu deveria acalmar minha mente, esvaziá-la, interrompendo o fluxo do pensamento, como se ela pudesse se tornar “um lago sereno, sem ondas”, como se imitasse o futuro da imagem do salar. Assim é meditar, um exercício igualmente muito difícil.

    No vídeo, o que se vê, além da paisagem aparentemente imutável, é o surgimento repentino e intermitente de uma linha-guia verde aplicada sobre a linha do horizonte, em todos os momentos em que a câmera a capta exatamente no centro da tela e perfeitamente a zero grau. Um sutra, situado entre a estética do videogame e o layout dos painéis de controle de avião, que transforma o horizonte numa linha vertical. O Uyuni sutra é mais forte quando há o equilíbrio perfeito entre as duas metades da imagem: a da direita, ocupada pelo céu aparentemente imóvel, e a da esquerda, pela planície do sal, que se move constantemente. Opostos unidos, harmonizados, apaziguados.

  • Método básico de assovio gomero-tupi

    2014–2016

    Muito pouco se sabe sobre as etnias que outrora viveram nas sete ilhas Canárias, sobretudo suas culturas e línguas, antes da sua posse pelos espanhóis no século XIV. Restou pouco mais do que uma coleção de nomes próprios de guerreiros escravizados, alguns relatos sobre feitos heroicos e sobre linhagens de nobreza, e alguns milhares de crânios guanches expostos nas vitrines de um anacrônico museu de antropologia que nunca serviram para nada além do que demonstrar a mão pesada do conquistador. Entretanto, o mais improvável aconteceu, superando todas as adversidades; uma única língua, cuja transmissão é estritamente oral, não só resistiu ao invasor, mas também se adaptou a ele: o silbo gomero"– linguagem assobiada, hoje empregada apenas pelos habitantes de La Gomera e considerada patrimônio oral e imaterial da humanidade.

    Um homem nascido na ilha de Tenerife, obviamente de origem espanhola, cruzou o oceano com os jesuítas portugueses para tornar-se sábio e santo no Brasil: José de Anchieta. Ao contrário de seus compatriotas, o santo aprendeu a respeitar os aborígenes e, aplicando os fundamentos da enculturação, terminou por escrever a Arte da gramática da língua mais falada na costa do Brasil. Sua intenção sempre foi a de catequizar os tupis, mas terminou por fazer muito mais, já que os defendeu dos abusos dos colonizadores portugueses. Durante os meses em que foi mantido refém entre os tamoios, o santo concebeu o Poema à Virgem, mas não pôde transcrevê-lo imediatamente por falta de meios. Podia então ser visto na praia escrevendo e reescrevendo na areia os mais de 5 mil versos do poema. Consta, também, que teria levitado entre os índios que, apavorados, pensaram que o santo era um feiticeiro. Teria sido um transe? O tupi antigo foi salvo por ações singulares de indivíduos como Anchieta e sua derivação nheengatu"– língua boa"– ainda hoje é falada como uma espécie de língua geral amazônica. E se naquele transe o santo tivesse ouvido o silbo gomero de sua terra natal e tratasse de ensiná-lo aos tupis?

  • Mi mo, kokoro mo

    2012

    A mais meridional das capitais sul-americanas não resiste ao tempo. Simplesmente o acompanha, sem pressa pelo “novo”, transformando-se lentamente, sem se desesperar pelo metal que não brilha mais, pelo néon que não se acende, pelo estilo que se tornou anacrônico. O que poderia ser resultado de uma melancolia mal resolvida pós-repressão"– que teria envenenado a incrível vocação revolucionária daquele povo"– torna-se um gesto político e faz com que o tempo se ajuste aos desígnios e desejos da cidade e seus habitantes. Austeridade e sabedoria.

    Em Montevidéu, além das encardidas paredes do Museo Blanes, um verdadeiro tesouro se esconde no fundo do terreno: um surpreendente jardim japonês, essência da natureza condensada em 2 mil metros quadrados. Em torno das aleias meditativas em forma de “infinito”, nenhum elemento fundamental foi esquecido"– pedra, bambu, água, #ores, carpas, lanterna de pedra, a “ponte de deus”, a “casa de chá”, o desenho na areia branca"– e nenhum deles é supérfluo. Austeridade e equilíbrio.

    Um dia, percorrendo as trilhas da internet, deparei-me com as mais lindas interpretações da Internacional: um solo de violão de Daisuke Suzuki, executado no fim do filme Mi mo kokoro mo (de"Haruhiko Arai, 1997) e seus primeiros acordes reproduzidos em uma simples caixinha de música. Cada vez que a corda acaba, recomeçamos o percurso em busca de um ideal. Repetir repetir – até ficar diferente, diria o poeta Manoel de Barros. Cuerpo sí, corazón también, dizem os montevideanos. Eles estão certos. Austeridade, pero sin perder la ternura jamás.

  • Mundo da lua

    2013

    Para aqueles que escolheram a chapada dos Veadeiros para viver no “mundo da lua”, o amanhecer do dia 21 de dezembro de 2012 seria deslumbrante – arco-íris cruzando arco-íris – e os problemas só começariam depois do meio-dia." 

    Uma transição planetária provocaria a inversão dos polos Norte e Sul. Embora vulcões entrassem em erupção e tsunamis devastassem tudo, na Terra, abaixo dos mil metros de altitude, o poder energético de uma enorme placa de cristal de quartzo, sob seus pés, protegeria o local dessa profecia apocalíptica e parece justificar o boom imobiliário comemorado por alguns. Vários moradores passaram a cultivar a terra de maneira não agressiva, alegando estar servindo ao planeta. Outros empreenderam verdadeiras “faxinas no coração”, perdoando pessoas e se conectando com o Universo. A simples ação de observar o entorno, da coisa mais distante e improvável à mais próxima e prosaica, seria o ponto de partida para a conexão cósmica. Observação – ação não menos fundamental do que respiração. Alguns buscavam os benefícios da meditação; outros, simplesmente, buscavam. "

     

    Contrariando as expectativas, inclusive de alienígenas que compartilhariam essas previsões, não houve sinais visíveis de transformações e o mundo e todos os seus habitantes parecem ter seguido seu curso natural. No Brasil, na altura do paralelo 14, no seio da serra do Segredo, no ponto mais alto do planalto central, as corredeiras de águas transparentes do rio São Miguel continuam a modelar o Vale da Lua, como fazem há milhares e milhares de anos. Apesar da aparente normalidade, alguns seres humanos afirmam que foi dado início a uma grande mudança espiritual.

  • Esperando…

    2010-2014

    Gogô e Didi são dois carros estacionados numa rua qualquer de Lagos, a maior metrópole africana, assistindo ao longo desfilar de seres automóveis – humanos, animais e manufaturados –, de todos os tipos e tamanhos, diante de seus faróis. Eles usam o código Morse para se comunicar por meio de suas buzinas. Eles não sabem que estão sendo observados, nem que há alguém perto o suficiente para ouvi-los e com domínio da linguagem para compreender e transcodificar o que dizem. Tal como Mr. Punch & Judy, esses dois velhos amigos matam o tempo se provocando, na esperança, talvez, de que alguém pare e preste atenção à sua contenda. Porém, a espera é inútil, pois há buzinas demais para que alguma delas faça algum sentido no caos urbano. Enquanto esperam, Gogô se espelha na gentileza de Tony Allen e Didi encarna o africano original de Fela Kuti. Ambos parecem discordar dos estilos de vida, mas compartilham a mesma clarividência sobre a condição africana e um profundo desprezo pela herança de escravidão e colonialismo. A conversa entre eles, entretanto, não os leva a lugar nenhum. Gogô e Didi são Tony Allen e Fela Kuti, mas também são Mr. Punch e Judy e também são Estragon e Vladimir. Toda e qualquer semelhança com os personagens criados por Samuel Beckett nunca foi mera coincidência.

  • A eternidade a dois passos

    2013–2015

    As antigas escrituras Vedas contam que houve um momento na história do mundo em que deuses e demônios lutaram pela jarra – kumbh – onde se encontrava o néctar – amrit – da imortalidade. Durante a batalha pela posse da jarra, quatro gotas de amrit caíram na terra, cada uma em uma cidade – Allahabad, Haridwar, Nasik e Ujjain –, no momento em que o planeta Júpiter entrava em Aquário e o Sol em Áries, posição que se repete a cada 12 anos. O Kumbh Mela celebra esse acontecimento, alternando seu local de realização entre as quatro cidades até retornar, a cada 12 anos, a Allahabad, a mais sagrada de todas, onde Brahma realizou seu primeiro sacrifício por ter criado o Universo.

    No dia 10 de fevereiro de 2013, éramos cerca de 30 milhões de indivíduos acampados nas imediações de Allahabad. A ocasião era o histórico Maha Kumbh Mela, momento tão mágico que só se repetirá no ano de 2157. A missão era uma só, mas muito difícil: não sucumbir às ondas de seres humanos, indo e vindo na mesma direção, e alcançar a margem do Triveni Sangam, local de encontro dos rios sagrados Ganges, Yamuna e o mítico Saraswati para o Mauni Amavasya. Durante aquele banho, o néctar diluído naquelas águas abençoadas nos limpou dos pecados cometidos nas últimas encarnações e purificou nossa alma.

    Nada é fácil para quem quer chegar um pouco mais perto dos deuses. A iluminação e a eternidade dependem de muita perseverança para vencer os obstáculos naturais e humanos e muita fé para enxergar o paraíso além daquelas águas poluídas e escutar o chamado divino. O turista transcendental é treinado para isso; para ele tudo é possível, talvez até reverter o fluxo da vida, mesmo que simbolicamente. Ele é capaz de mergulhar nas águas turvas do triveni e emergir muitos quilômetros acima, aos pés do Himalaia, morada das almas dos deuses. Lá, onde as águas do rio Ganges, ainda verdes e límpidas, iniciam sua jornada rumo ao oceano, alimentando e abençoando milhões de indivíduos até se diluírem no todo, metáfora perfeita do fluxo lírico da humanidade.

    • Bouk [ring/loop], 2006-2009
      Bouk [ring/loop], 2006-2009
    • Anuloma-viloma azteca - da série Turista Transcendental, 2010-2011
      Anuloma-viloma azteca - da série Turista Transcendental, 2010-2011
    • Kundalini freedom - da série Turista transcendental, 2009-2011
      Kundalini freedom - da série Turista transcendental, 2009-2011
    • Yangˇyin Bosphoros - da série Turista Transcendental , 2011-2012
      Yangˇyin Bosphoros - da série Turista Transcendental , 2011-2012
    • Uyuni sutra - da série Turista transcendental, 2008-2011
      Uyuni sutra - da série Turista transcendental, 2008-2011
    • Método básico de assovio gomero-tupi - da série Turista Transcendental, 2014-2016
      Método básico de assovio gomero-tupi - da série Turista Transcendental, 2014-2016
    • Mi mo, kokoro mo [Corpo sim, coração também] - da série Turista Transcendental
      Mi mo, kokoro mo [Corpo sim, coração também] - da série Turista Transcendental
    • Mundo da Lua - da série Turista Transcendental , 2013
      Mundo da Lua - da série Turista Transcendental , 2013
    • Esperando ... - da série Turista Transcendental, 2010-2014
      Esperando ... - da série Turista Transcendental, 2010-2014
  • Rosângela Rennó

    Rosângela Rennó

    Rosângela Rennó (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1962) estudou arquitetura e Artes em Belo Horizonte (Brasil), e obteve seu doutorado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Valendo-se de fotografias de arquivo de uma variedade de fontes vernáculas (jornais antigos, álbuns de família, barracas de mercados de pulgas), Rennó compõe e transforma essas imagens encontradas em composições maiores em forma de colagens, instalações, e livros de artista. Sua obra chama a atenção à duração finita dos intervalos temporais, à capacidade humana do esquecimento e ao apagamento sistemático do passado. A obra perturbadora e poderosa da artista desafia um dos preceitos centrais da fotografia: a de que ela esteja a serviço da memória. Rennó já expôs na Fondation Cartier, Paris, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, e no Fotomuseum Winterthur, entre outros. 

    Entre as coleções públicas ou abertas ao público que colecionam seu trabalho estão: Fundación Museo Reina Sofia (Espanha); Fundação Caloustre Gulbenkian (Portugal); Museu de Arte Moderna de São Paulo [MAM SP] (Brasil); Pinacoteca do Estado São Paulo (Brasil); Guggenheim Museum (EUA); Centre Georges Pompidou (França); Tate Modern (Inglaterra); Stedelijk Museum voor Actuele Kunst SMAK (Bélgica); Museum of Contemporary Art [MOCA] (EUA); Museu de Arte de São Paulo [MASP] (Brasil); Museum of Moderna Art [MoMA] (EUA); Instituto Inhotim (Brasil); Colección Jumex (México).